25/07/2014

Aquele caderninho

Será que você lembra daquela menininha, vó, de cabelos escorridos caindo nos olhos, estabanada, curiosa e de voz fininha, ganhando de você um caderninho de páginas cor-de-rosa? Aquele dia você me contou que eu podia escrever qualquer coisa que eu quisesse. Qualquer coisa. Aquilo foi mágico. Talvez a senhora nem saiba. E naquela época eu também não. Mas aquele caderninho virou um hábito. E aquele hábito virou uma salvação.

Em dias como esse só escrever faz sentido…

Escrever alenta esse medo enorme que ninguém vê. E não podendo ver, ninguém cuida. Escrevendo eu costuro os meus cortes invisíveis. Enquanto eu escrevo, o mundo continua lá fora, com as pessoas e os problemas que criamos, esperando apenas que eu abra a porta. Enquanto eu escrevo nada muda nem se resolve. Apenas eu mesma. Mas esse é o breve momento em que isso importa, qualquer coisa sobre mim mesma.

Hoje eu estou muito triste, viu. Essa dor tão familiar que é o abandono. Na verdade ninguém partiu. Estão todos mais ou menos no mesmo lugar. Mas às vezes eu não consigo enxergar se suas almas estão lá também. As almas foram cuidar dos negócios. Os negócios movem o mundo, viu. Mas eu sei que você também não entende muito bem disso.

Eu passo os dias tentando me enquadrar na vida das pessoas grandes e seus negócios. Às vezes simplesmente não funciona. Não importa o que eu faça, continua um buraco lá. Um buraco negro, cujo tamanho engana. Por dentro ele é infinitamente maior que por fora . Esse buraco é a antifísica do mundo dos negócios. Nada real e material pode preenchê-lo. Tudo que entra nele se perde, inclusive eu mesma. As explicações sensatas das pessoas grandes se embaralham e se perdem semanticamente. O buraco só entende o amor do amor que não precisa ser medido nem controlado. E o amor das pessoas grandes são como os negócios. São cheios de regras e limitações. O amor do mundo de fora é cheio de perdas e ganhos. Ninguém quer sair no prejuízo. E pra não sair no prejuízo, machucamos uns aos outros.

E quando o mundo me deixa muito machucada, eu escrevo. O meu destinatário é imaginário, mas é o melhor ouvinte do mundo. Só ele absorve tudo que eu sou e sinto, sem julgar meus exageros. Às vezes me faz falta que ele não possa ser mais real, com os braços grandes e fortes, e um cheiro de casa, com a respiração calma pra ficar na nuca, e com balanço e cafuné pra me ninar. Mas parece que no final é sempre isso: As coisas que eu sonho. As coisas que eu vivo. E uma linha cada vez menos tênue entre um mundo e o outro…

E entre os dois mundos, as coisas que eu escrevo.

 

 

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17/04/2014

You belong to me.

And none of that was an illusion. But for a minute, there was a rave. A sweet  impairer delirium. You were crying so loud that you thought you heard: “Cry it all, I can stand it”. That, sweetheart… that was a rave. And you knew it, stubborn child, ‘cause I’ve told you a million times – as many times your obstinacy asked me to. But you are the strongest feeble girl I’ve ever met.

Will you ever learn it, sweet  little girl blue?

 

Loneliness cannot wait you too much longer. She knows better where you belong.

17/04/2014

Dos meus remendos, e os dias cinzas.

Os olhos, e não apenas o coração, também se trincam. E as trincas começam a esticar-se, até que o fim de uma encontra o começo de outra, que juntas trincam-se para outros fins e começos. Não sei se esse movimento acaba. E eu não sei se essa dor é o movimento do vazio rachadura adentro, ou do vazio afora.

Sei que essas trincas na superfície formam caminhos complexos. Amar é complexo. Chorar também.

Eu sei que dói. Não sei o quê.

Sei também agora que é mais difícil com um coração remendado: tudo é mais difícil. Talvez seja como o menino, que não podendo arranjar uma bola nova, arranja a velha. A remenda toda. E brinca, enquanto pode brincar. Finge que é como as outras, enquanto pode fingir. Mas sabe no fundo que a qualquer minuto a bola estoura, sem muito esforço, sem precisar que haja culpa mesmo de alguém. A culpa é dos remendos. E os remendos: são culpa de quem?

A gente alcança o ápice da dor e percebe que não importa. Não importa a culpa. Pra culpa, existe o perdão. A culpa começa antes do culpado. A culpa remonta à Adão e Eva – triste raça.

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Mas talvez importe o perdão…

P.s.:

E perdão, moço, esta pergunta estranha, mas dentre tantas bolas novas, você também não teria um coração? Tudo bem, serve também um abraço, porque hoje é o dia mais cinza do universo, e eu não tenho nada mais pra fingir que ainda é azul.

23/04/2013

Das coisas que te tenho escrito.

Queria te escrever alguma coisa bonita. Simples e exata. Mensurável como o tamanho do seu sorriso. Mas as palavras são escorregadias como os peixes. E é difícil manejá-las entre os dedos.  As palavras são tão sólidas quanto água, até que ebulem, evaporam, derretem e se desmancham. E não é abstrato isso que eu descobri que sinto por você. O que eu tenho pra te escrever é concreto. E é preciso dizê-lo de maneiras concretas. O que eu tenho pra te escrever, é verdade, já tenho escrito: no movimento circular que faço no seu cabelo quando você se deita, no movimento delicado dos meus dedos que sobem e descem os espaços vazios da sua barba, no movimento de entrega do meu corpo quando você me abraça forte e me arranca do chão, no movimento profundo do meus beijos quando recebo  os seus, no movimento horizontal do meu sorriso quando você o provoca sem esforços, no movimento lento dos meus olhos quando te admirando eu preciso me esforçar pra acreditar que o que eu sinto existe, no movimento apertado dos meus dedos quando entrelaçando os seus quase digo ‘não vou te deixar partir’, ou no movimento apertado dos meus abraços de corpo inteiro como se abraçando eu pudesse fundir todo meu amor no seu. Queria te escrever o que tenho escrito cada vez que te vejo, como se minhas palavras pudessem ser tão exatas quanto a leitura dos movimentos do coração. Mas não são. Pois todos meus gestos que se repetem só podem significar amor, mas não há prolixia que baste no mundo para fazer caber todo meu amor nestas muitas ou pequenas palavras. Devo por isso ainda conjugar porventura estas pequenas – ‘eu te amo’ – na tentativa abstrata de traduzir todos os movimentos concretos da linguagem mais intraduzível que fluentemente por você aprendi: o meu amor.

30/01/2013

Às vezes é preciso chorar.

Nós que somos tão fortes que não podemos ser fracos, somos, na verdade, fracos. Tão fracos que temos medo de que, demonstrando nossa sensibilidade, denunciemos nossa fragilidade, temendo que nossas fragilidades sejam entendidas como nossas fraquezas. Então, para não corrermos o risco de parecermos fracos, sacrificamos também nossa comoção. E temos a sacrificado por tanto tempo que acreditamos que nos tornamos imunes. Achamos que somos bem sucedidos em ignorar desde as mazelas e tragédias sociais às pequenas decepções pessoais de cada dia. Mas quando percebermos – se percebermos – como se enternecer pelo outro tem sido doído ou difícil, ou o quão absurdamente inseguros temos nos sentido em nosso íntimo, ou confrontando estranhos… talvez, então, percebamos também que temos errado; que, afinal, não fomos tão bem sucedidos em ignorar. E nosso erro é, primordialmente, conceptual. Temos confundido sensibilidade com fraqueza, porque confundimos força com indiferença. E em nome da nossa indiferença, temos banalizado, sobretudo, o amor: à pátria, à dignidade humana, aos outros, a si próprio. Banalizamos porque não queremos sentir. E nosso constante esforço para mascarar nossa sensibilidade é um vício contraditório: não queremos sentir para parecermos fortes, mas não suportamos sentir porque estamos fracos.

05/11/2012

Instinto.

Nada que é tão fácil é como deveria ser.

05/11/2012

Falta.

Mas as coisas mais secretas permanecerão. Ainda depois de o tempo amargar o nosso doce. Te lembro doce. Não obstante, isto não é pra você, nem sobre você. Mas falta é uma coisa que agora faz parte de mim. E sobre mim, existe você. Ou falta de.

05/11/2012

A minha bagunça, o tempo e outros fatores.

Hoje acordei com a respiração curta.  Muitos pontos. Poucas vírgulas. Eu já não sei quanto tempo faz desde a última vez que desmoronei. Eu não sei se lembro porque. Sei que eu tenho me perdido por mais tempo entre um insight e outro.  É como se eu estivesse melhorando minha habilidade em mergulhar cada vez mais fundo e por mais tempo. O tempo aperfeiçoa, mas é indiferente a vícios ou qualidades. Aperfeiçoa o que quer que seja. Por exemplo,  amadurecer me ensinou a anestesiar meu desespero. Não quer dizer que eu me desespere menos…

24/10/2012

Self deception

So, the best thing in a lover is self deception, before he knows that it is.

21/09/2012

Faz tempo que não despejo. Vai ver por medo, de tanta coisa acumulada. Vai ver por cansaço, de tanta coisa acumulada. Vai ver por … tanta coisa acumulada.

Eu olho no espelho, e adivinha? Me reconheço. Mas falta você chegando na cena com um beijo estalado na nuca, ou  uma cutucada na costela. Falta aquele seu sorriso despretensioso, sabe? Bobo, de menino. Você é um menino bobo!

Outro dia eu sussurrei baixinho no meio do momento, era um desses momentos quaisquer, que o urgente transborda o afazer:

– Eu te gosto, menino. Eu te gosto, seu bobinho.